A América Latina continuará sendo prejudicada pela crise de talentos se o jogo não virar

Em meio à crise de talentos da região, ficou claro que somente as novas abordagens de desenvolvimento de talentos resolverão o problema. Conversamos com Fabio Bittencourt Daniel, que acredita ter uma solução.

talent crisis

À medida que a crise de talentos se intensifica na indústria global de serviços de TI, a necessidade de uma solução viável e sustentável torna-se cada vez maior. Ou a indústria trabalha para consertar o problema, ou ela sofrerá perdas inevitáveis de contratos, custos mais altos para os clientes e estudantes desapontados e sem motivação para se juntarem à indústria.

Poucas pessoas em nossa indústria possuem experiência bilateral entre clientes e fornecedores, e menos pessoas ainda ocupam cargos executivos que lidam com ambos os lados da relação. Uma pessoa específica é Fabio Bittencourt Daniel, executivo veterano de TI cuja carreira o transformou de CIO da Transportación Marítima Mexicana (TMM Group) em CEO da Softtek no México e América Central, além de VP/Chefe da Wipro na América Latina. Esses cargos altos permitiram que Daniel acumulasse insights exclusivos sobre a crise de talentos da região, algo que o interessou profundamente.

Fissuras no modelo de geração de talentos na América Latina

Fabio Bittencourt Daniel
Fabio Bittencourt Daniel: “Na América Latina, é sorte encontrar 7-10% dos talentos de TI que conseguem falar um bom inglês”.

“Na América Latina, o modelo de geração de talentos não está oferecendo os elementos de que o mercado precisa; a demanda está aumentando muito mais rápido do que a capacidade do mercado de gerar talentos”, ele diz. “Na verdade, a crise de talentos é um problema mundial, mas é muito mais perceptível nessa região. Se quisermos que a América Latina apresente uma participação justa no mercado global de TI, precisamos mudar isso”. Daniel defende que os métodos utilizados pela indústria e pela academia para desenvolver recursos humanos de TI suficientes são inerentemente falhos.

Mas como se apresentam as falhas? Onde estão as fissuras do sistema que estão levando a essa tendência negativa na indústria? Daniel atribui essas falhas à falta de preparação dos estudantes durante a universidade. “Na América Latina, é sorte encontrar 7-10% dos talentos de TI que conseguem falar um bom inglês”, ele explica. “Não há preparação linguística suficiente no idioma; as pessoas precisam ser competentes em inglês se desejam estar no mercado mundial.”

Além do idioma, Daniel observou que o número de formandos em TI está caindo na região, não devido à falta de trabalhos disponíveis, mas sim porque eles não possuem as competências e a experiência necessárias, restringindo, assim, a capacidade de conseguirem trabalho após a graduação. “Geralmente, os estudantes trabalham em cargos que não estão relacionados à TI concomitantemente aos estudos, o que atrapalha as oportunidades futuras”, ele explica. “O que deveriam fazer é procurar por um trabalho que esteja relacionado à TI para complementarem os estudos”.

O círculo vicioso continua: muitos indivíduos talentosos na região não podem pagar pela educação e os que podem ficam desmotivados quando percebem o quão difícil é encontrar emprego, de acordo com Daniel. “E não é só isso, a estrutura dos custos na América Latina é absurda em relação à Índia ou as Filipinas. O sistema inteiro é falho e está implorando por um novo modelo”.

O sofrimento do comprador

Em relação ao papel de comprador durante sua carreira, Daniel ajudou o TMM Group a passar de uma empresa de US$ 300 milhões para uma de US$ 1,2 bilhão através da tecnologia no fim dos anos 90. “Fomos um dos primeiros a implementar o SAP no México, mas foi um pesadelo encontrar pessoas que conseguissem mantê-lo”, ele diz. “Até hoje, o problema é que os bons consultores ficam mudando de um lugar para outro e estão tornando-se mais caros, principalmente porque não há um número suficiente de pessoas”.

Nessa crise de talentos, os clientes compradores são os que sofrem, pois acabam pagando mais por recursos piores. Por exemplo, para entregar um projeto dentro do prazo, os fornecedores precisam reunir uma equipe eficiente, de maneira oportuna e com bom custo/benefício. Se eles não conseguirem fazer isso, o projeto atrasa antes mesmo de começar, o que pode levar a medidas desesperadas e caras.

“A luta para conseguir talentos que apresentem competências apuradas e atribuí-los a um projeto é a principal razão pela qual os projetos atrasam”, diz Daniel. “Isso leva ao desespero e as empresas pagam o que for para consertá-los, aumentando os custos para os clientes, reduzindo a qualidade e criando um mau negócio. Assim, o projeto fica cheio de recursos para compensar o tempo perdido. Essa história não é a única; ela é a regra na região.”

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Uma perspectiva de solucionar a crise

Fugir dos sistemas testados e comprovados, ainda que falhos, é a única maneira de tratar do problema, algo em que Daniel está trabalhando em Merida, no México. A perspectiva de Daniel é que a América Latina tenha orgulho das universidades de TI que podem criar talentos para o mercado global, incluindo habilidades linguísticas, mudança nas perspectivas culturais e desenvolvimento de conceitos de qualidade mais alinhados globalmente.

“Culturalmente, a América Latina aceita o atraso como uma regra, algo que o mercado global não tolera”, ele explica. “A importância da qualidade também deve ser compreendida nessa região, pois a qualidade é vista, basicamente, como um fardo e não como uma prioridade. Se temos qualidade, temos comportamentos alinhados à cultura global, e se possuímos habilidades técnicas e pessoais, então começamos a nos transformar em um profissional de nível superior. A única coisa que está faltando é a exposição; precisamos posicionar esses profissionais em um ambiente em que tais habilidades possam ser colocadas em prática”.

O conceito de Daniel, que está sendo posto em prática de forma ativa em Merida, é desenvolver universidades voltadas para TI que treinem essas habilidades necessárias e as conectem a um “megacentro” de serviços de TI, onde possam aplicá-las e pagar pelos estudos desde o começo. Além disso, ele tem consciência de que os estudantes precisam estar sedentos por trabalharem na indústria e devem ser maleáveis em relação às expectativas, o que significa disciplina e comprometimento. “Se eles conseguirem fazer o necessário, serão recompensados com fundos para o pagamento dos estudos, bem como as habilidades de que a indústria global precisa para solucionar a crise de talentos.”

A ideia é ambiciosa: Daniel espera criar 20 megacentros como esse em toda a região, cada um com 5.000 pessoas. Se for bem-sucedida, a estratégia pode fornecer 100.000 pessoas novas para a indústria a cada ano, cada uma com as capacidades competitivas para serem bem-sucedidas em escala global. “É assim que começamos a virar o jogo”, ele diz. “Se inundarmos o mercado com recursos talentosos e bem preparados, as empresas não precisarão roubar talentos dos concorrentes tão frequentemente, beneficiando todo mundo.”

Daniel está financiando sua perspectiva pessoalmente com a ajuda de um parceiro empresarial. Mesmo sendo muito cedo para Daniel revelar detalhes mais específicos, ele espera que o centro de Merida integre os primeiros formandos até o início de setembro de 2017. Ele também planeja que os países com as maiores populações (México, Brasil, Colômbia, etc.) abriguem a maioria dos 20 centros. Se o conceito funcionar e a região incorporá-lo, em breve a abordagem do desenvolvimento de talentos estará passando por uma mudança muito necessária e, talvez, esse seja o fim da crise de talentos.

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